Consequências da morte materna nos órfãos de até 15 anos de idade na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul – Brasil

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Wagner Wessfll

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Objetivos: objetivou-se avaliar as consequências da morte materna por causas obstétricas e não obstétricas, na cidade de Porto Alegre (Rio Grande do Sul), na saúde e no bem-estar de filhos(as) de até 15 anos de idade. Assim, desenvolveram-se três artigos científicos que buscaram: 1) Identificar a produção cientifica existente sobre as consequências na alimentação de crianças órfãs menores de cinco anos em decorrência da morte materna, aplicando softwares livres de mineração de texto. 2) Caracterizar o perfil sócio demográfico da violência contra adolescentes notificados a partir do Sistema de Vigilância de Violência e Acidentes/VIVA, no Brasil 3) Avaliar as consequências da morte materna por causas maternas obstétricas e não obstétricas, na saúde e no bem-estar dos órfãos de até 15 anos de idade, na cidade de Porto Alegre/Rio Grande do Sul, no período 2010-2015. Métodos: No primeiro artigo aplicou-se uma metodologia transversal, onde foram selecionados dez artigos em inglês publicados entre 2000 e 2015 nos temas de morte materna, recém-nascido e crianças órfãs menores de cinco anos que perderam a sua mãe na gravidez, parto ou puerpério; nos repositórios PubMed e BIREME de acesso livre nos quais foi lido apenas o título. Os arquivos de textos foram trabalhados no formato “txt” construindo-se um corpus para análise do conteúdo semiestruturada. A análise do corpus foi feita com os softwares Tag Crowd, e Textalyser para análise de monogramas e bigramas respectivamente, AntConc e Voyant Tools, para extrair palavras-chave na análise de contexto. No segundo artigo foi descrito um estudo epidemiológico descritivo com dados secundários do Sistema de Vigilância de Violência e Acidentes / VIVA das notificações de violência contra adolescentes entre 10 e 19 anos no Brasil entre 2009 a 2016. As variáveis analisadas foram idade, sexo, raça, local de ocorrência, vinculo do agressor com a vítima e suspeita de uso de álcool nos casos de violência física, violência psicológica/moral e violência sexual. Utilizou-se estatística descritiva e o teste de tendência de proporções no STATA. Já o terceiro artigo reflete o estudo principal que originou a tese, e trata-se de uma pesquisa transversal com abordagem mista. Utilizou-se a base de dados da vigilância epidemiológica do óbito materno, do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e de Nascidos Vivos (SINASC), no período 2010-2015, e o Sistema de Cadastramento de Usuários do SUS (CADSUS) do Ministério da Saúde implantado nos municípios do Brasil. Identificaram-se 90 casos de morte materna (MM) por causas obstétricas e não obstétricas em Porto Alegre, no período 2010-2015. Destes, 75 foram incluídos pela presença de pelo menos um filho vivo quando ocorreu a morte. Já 15 foram excluídos por falta de informações. Incluíram-se as variáveis: data de nascimento, data de óbito e número de filhos. A partir dos dados coletados nos sistemas de informação, iniciou-se o estudo qualitativo. Foram entrevistados nove cuidadores e 14 órfãos no Porto Alegre. Coletou-se dados sociodemográficos dos órfãos e seus cuidadores. Também foram aplicadas medições antropométricas nas crianças/adolescentes e o Child Health Questionnaire – Parent Form 50 (CHQ-PF50) para avaliar o bem-estar físico e psicossocial das crianças e adolescentes, na percepção dos cuidadores. Utilizou-se a dinâmica de criatividade e sensibilidade junto aos órfãos para avaliar a percepção que eles têm da saúde, além de uma entrevista semiestruturada. Usou se estatística descritiva para analisar dos dados quantitativos. Já as entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas com o software Voyant Tools. A partir dos termos emergentes se fez uma análise descritiva das mesmas. A pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética e Pesquisa da UFCSPA e da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Resultados: Artigo primeiro, usando ferramentas de mineração foram analisadas 67.642 palavras e 8083 formas de palavras únicas em 10 textos semiestruturados. Os termos CHILDREN [827] e DEATH [821] foram os mais frequentes; enquanto que os menos frequentes foram BREASTFEEDING [10] e NUTRITION [4]. Encontrou-se 44 concordâncias para o termo raiz BREAST* e 25 para a palavra NUTRITION em orações como: “crianças órfãs têm o aumento de risco de mortalidade por falta de amamentação, diretamente por meio da desnutrição e indiretamente devido ao aumento da susceptibilidade às infecções”. As sentenças de concordância mostram que a mudança do aleitamento materno conduz a uma pobre nutrição, deixando ao recém-nascido exposto a infecções, o que aumenta o risco de morte na criança. Já os resultados no segundo artigo mostraram que entre os anos 2009 e 2016 foram notificados 204.989 casos de violência física, 75.058 de violência psicológica/moral, e 77.760 casos de violência sexual perpetrados contra adolescentes de 10 a 19 anos, de ambos os sexos. A taxa de prevalência da violência física na faixa de 15- 19 anos alcançou 104,4 por 100.000 casos, mostrando uma tendência crescente independentemente do sexo do adolescente. A prevalência da violência sexual na faixa de 10-14 anos foi de 38,5 por 100.000 casos, mas nas meninas houve uma taxa de crescimento anual perto de 10 casos por cada 100.000 adolescentes. Quanto à violência física como a violência sexual atingiu principalmente as meninas das raças parda e indígena acontecendo na residência da vitima, sendo o agressor o namorado. O sistema de vigilância da violência, não inclui a variável condição orfandade dos adolescentes. Os resultados do terceiro artigo mostraram que entre 2010-2015 houve 75 mães falecidas por causas obstétricas e não obstétricas que deixaram 179 crianças órfãs para a guarda das famílias, sendo 61 neonatos. Sete órfãos faleceram após a morte da mãe. Das produções artísticas emergiram as vivências e percepções dos órfãos em relação à saúde, assim pelo menos quatro deles se auto-percebe doente; alguns relataram sentimentos de raiva, outros mencionaram serem agredidos pelos irmãos e cuidadores. A maioria dos órfãos tem um olhar de tristeza e apatia. A morte materna levou à desagregação familiar, migração e separação dos filhos, gerando problemas na saúde mental, nutricionais, emocionais, de fala e violência. As avós eram as principais cuidadoras e referiram dificuldades no acesso aos serviços de saúde especializados. Conclusões: No primeiro artigo o processamento de texto com as ferramentas livres foi rápido e permitiu extrair informações úteis e compreensíveis; na análise de dez artigos, mostrou as consequências que tem a morte materna na alimentação das crianças órfãs, repercutindo na morbidade e mortalidade infantil. No segundo artigo houve uma tendência progressiva de aumento dos casos notificados de violência contra adolescentes, ao longo de oito anos. Predominaram os casos notificados de violência física e sexual atingindo principalmente as meninas, na residência sendo o amigo/conhecido ou namorado da vítima o principal agressor. Já no terceiro artigo conclui-se , que a morte materna deixou consequências imediatas, como a morte dos filhos e mediatas na saúde mental dos órfãos, exacerbando ainda mais o estado de vulnerabilidade em que se encontram. Portanto, faz-se necessário estabelecer um sistema de registro, identificação e acompanhamento aos órfãos e famílias, além de garantir cuidados interdisciplinares, atendimento da saúde geral e acompanhamento na escola após a morte materna.

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Tese (Doutorado)-Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

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